Há uma linha que, na vida pública, convém saber onde está. João Maria Jonet parece estar a aproximar-se dela, ou, pior, a fingir que ela não existe.
O problema não é João Maria Jonet gostar de futebol. Não é ser jovem. Não é ter opinião sobre desporto, participar em podcasts ou procurar formas alternativas de comunicar com uma geração que consome informação fora dos meios tradicionais. Tudo isso é legítimo e, em muitos casos, até desejável.
O problema começa quando essa presença pública acontece através de uma plataforma criada e financiada por uma casa de apostas.
Jonet não é hoje apenas o jovem comentador político que se tornou conhecido nas redes sociais. É vereador da Câmara Municipal de Cascais, eleito para o mandato 2025-2029. A própria Câmara identifica-o como vereador independente e a sua biografia oficial recorda um percurso que passa pelo comentário político, pela consultoria e pela participação em campanhas políticas.
Essa mudança de estatuto deveria mudar também a forma como olha para as suas escolhas públicas.
Pode parecer uma distinção demasiado severa. Afinal, dirão alguns, estamos perante um podcast sobre futebol. Não é uma intervenção numa reunião de Câmara. Não é uma campanha eleitoral. Não é uma decisão administrativa.
Mas a política contemporânea não funciona apenas dentro da sala de sessões da Câmara. A reputação, a influência e a capacidade de comunicação de um político também são construídas, ou destruídas, fora dela.
E é precisamente aí que a questão das apostas se torna particularmente séria.
Portugal não está perante um problema abstrato. Os dados oficiais do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências mostram que, em 2025, 17% dos jovens de 18 anos fizeram apostas online - 30% entre os rapazes e 5% entre as raparigas. A percentagem era de 15% em 2015.
O próprio Estado reconhece os riscos. O enquadramento português exige que a publicidade a jogos e apostas seja socialmente responsável e que não encoraje práticas excessivas, não associe o jogo a sucesso ou êxito social e proteja particularmente menores e grupos vulneráveis.
Mais recentemente, uma análise do PLANAPP identificou precisamente como uma fragilidade a utilização de influenciadores e figuras públicas conhecidas nas estratégias de marketing das empresas de jogo, bem como a associação das apostas a estilos de vida e programas mediáticos de grande visibilidade. O documento chama ainda a atenção para a vulnerabilidade particular dos jovens adultos.
É difícil imaginar um exemplo mais claro daquilo que está em causa.
Quando uma casa de apostas cria ou financia conteúdos sobre futebol, não está simplesmente a promover entretenimento. Está a construir uma relação de proximidade com o público. Está a normalizar uma marca. Está a associar a sua actividade a pessoas, conversas, humor, desporto e referências culturais. E é precisamente através dessa normalização que o produto deixa de parecer uma actividade de risco e passa a integrar o quotidiano.
Por isso, a questão não é saber se Jonet diz, durante o podcast, alguma coisa particularmente irresponsável sobre apostas.
A questão é outra: o que significa emprestar a sua notoriedade e a sua credibilidade a uma plataforma cujo negócio é precisamente promover apostas?
É aqui que a desculpa de que “é só futebol” deixa de funcionar.
Jonet pode, naturalmente, considerar que o dinheiro envolvido compensa. Pode achar interessante o formato. Pode gostar genuinamente do ambiente desportivo. Pode entender que está simplesmente a exercer uma actividade de entretenimento. Nada disso é difícil de compreender.
Mas compreender não significa aceitar.
Porque um vereador não é apenas aquilo que faz durante as reuniões da Câmara. É também aquilo que legitima com a sua presença pública.
E este é um ponto especialmente importante quando falamos de alguém que construiu boa parte da sua imagem precisamente em torno da ideia de representar uma nova geração.
Que mensagem passa um jovem político aos jovens quando participa na promoção de uma indústria que o próprio Estado e as entidades públicas de saúde reconhecem como fonte de riscos aditivos?
É uma pergunta legítima. E merece uma resposta.
Aliás, há uma ironia particularmente desconfortável nesta história. Jonet tem defendido uma política de proximidade, de responsabilidade e de escrutínio sobre a utilização dos recursos públicos. Tem criticado, por exemplo, despesas municipais que considera excessivas e intervenções que entende não corresponderem ao interesse dos cascalenses.
É precisamente esse padrão de exigência que deve ser aplicado a si próprio.
A política não pode ser apenas uma actividade exercida quando dá jeito invocar o cargo. Quando se pretende autoridade para falar sobre Cascais, para representar os cascalenses e para tomar decisões que afectam a comunidade, essa responsabilidade não desaparece quando se acende a luz de um estúdio de podcast.
Não se pode querer simultaneamente a credibilidade institucional do vereador e a liberdade absoluta do entertainer.
É possível ser as duas coisas? Talvez. Mas só se houver uma fronteira muito clara entre ambas. E, neste caso, essa fronteira parece perigosamente esbatida.
Não estamos a dizer que Jonet não pode falar de futebol. Pelo contrário. Que fale. Que critique jogadores. Que discuta tácticas. Que faça humor. Que seja irreverente. Que tenha uma carreira mediática.
Mas há uma diferença entre participar num programa de futebol e associar a sua imagem a uma plataforma comercial de apostas.
E essa diferença é suficientemente importante para que um político tenha obrigação de a reconhecer.
Também não é necessário presumir que Jonet recebeu dinheiro para afirmar que existe um problema ético. Se existe remuneração, parceria ou qualquer outra contrapartida, isso deve ser tornado claro. Se não existe, tanto melhor: caber-lhe-á explicar publicamente em que condições participa. O que não podemos fazer é transformar uma questão legítima de responsabilidade pública numa acusação que não esteja sustentada por factos.
É justamente por isso que Jonet deve assumir.
Assumir a escolha. Explicar a parceria. Explicar as condições. Explicar porque entende que a sua participação é compatível com o exercício de funções públicas. E, sobretudo, explicar que responsabilidade entende ter perante os jovens que tantas vezes foram apresentados como parte central da sua identidade política.
Porque o problema não é João Maria Jonet ter 28 anos.
O problema é já não ter apenas 28 anos.
Tem um cargo público. Tem responsabilidades públicas. Tem influência pública. E, como ele próprio sabe melhor do que ninguém, influência é responsabilidade.
O dinheiro pode ser apelativo. O futebol pode ser apaixonante. O podcast pode ser divertido. A oportunidade mediática pode ser excelente.
Mas nem todas as oportunidades que aparecem a um político devem ser aproveitadas.
Há momentos em que é preciso escolher.
Ou se quer ser político, com as responsabilidades e os constrangimentos que isso implica, ou se quer ser entertainer, com a liberdade e a lógica comercial próprias do entretenimento.
As duas coisas podem até coexistir em determinadas circunstâncias.
Mas quando o entretenimento passa a servir uma indústria de apostas, e quando quem participa nesse entretenimento é simultaneamente um representante eleito dos cidadãos, a compatibilidade deixa de ser evidente.
E é precisamente aí que João Maria Jonet tem de assumir a responsabilidade pela escolha que fez.


