27/08/26

Editorial: Ativismo Com Insultos Não é Ativismo! É Má-Criação!


O trabalho associativo é, por definição, uma parte importante de uma sociedade civil viva. Quando é feito de forma voluntária, desinteressada e com genuína preocupação pelo bem comum, merece respeito e reconhecimento. Quem dedica tempo e energia à defesa de uma causa presta um serviço à comunidade.

Mas há uma fronteira que não pode ser ultrapassada. O trabalho associativo não confere autoridade sobre o espaço público.

Participar, intervir, reivindicar, pressionar e discordar são direitos, e são direitos essenciais numa democracia. Insultar não é. O facto de alguém dedicar anos a uma causa, ter visibilidade pública ou reunir à sua volta um grupo significativo de apoiantes não o coloca acima dos restantes cidadãos, nem lhe confere qualquer espécie de mandato para substituir quem tem a responsabilidade política de decidir.

O espaço público não tem donos.

Uma praia, uma marginal, um jardim, uma rua, um equipamento municipal ou qualquer outro espaço que pertença à comunidade não passa a ser propriedade de quem mais intensamente o defende. Tem responsáveis públicos, eleitos ou nomeados por quem foi democraticamente escolhido para exercer funções. Podemos concordar ou discordar das suas decisões. Podemos criticá-las duramente. Podemos exigir explicações, mobilizar cidadãos e contestar políticas.

O que não podemos é confundir influência cívica com autoridade democrática.

Nas últimas semanas, Cascais tem assistido a um comportamento que merece reflexão. Um ativista com reconhecido destaque público tem, na nossa opinião, ultrapassado em algumas intervenções nas redes sociais os limites daquilo que deve ser a decência no debate público, dirigindo ataques pessoais e insultos a um político que, concorde-se ou não com a sua atuação, foi democraticamente eleito para o cargo que ocupa.

Não está aqui em causa retirar mérito ao trabalho de Miguel Lacerda, nem à sua dedicação à defesa dos oceanos e da costa de Cascais. Essa dedicação é conhecida e, em muitos aspetos, merece ser valorizada. Mas mérito numa causa não se converte em autoridade sobre a decisão política, e muito menos em licença para insultar.

Há também uma dimensão particularmente deselegante nesta forma de confronto. Um eleito ou responsável político está sujeito a regras institucionais e a uma contenção que não se aplicam da mesma maneira a um cidadão que intervém nas redes sociais. A resposta de quem exerce funções públicas tem limites - legais, institucionais e políticos - que o cidadão comum não tem. Usar essa assimetria para elevar o tom do confronto pessoal não é coragem cívica. É, pelo contrário, uma forma pouco saudável e até cobarde de exercer influência.

É igualmente preocupante observar a forma como, por vezes, uma parte dos seguidores transforma o insulto em espetáculo e a agressividade em demonstração de pertença. Como se uma causa justa pudesse justificar todos os comportamentos de quem a defende. Não pode.

A democracia não se mede apenas pela liberdade de protestar. Mede-se também pela capacidade de aceitar que os outros têm o mesmo direito de participar, de discordar e, sobretudo, de exercer as funções para as quais foram escolhidos.

Quem trabalha pela comunidade não vale mais do que quem não o faz. Quem tem razão numa determinada matéria não passa, por isso, a ter o direito de decidir por todos. E quem exerce funções públicas não fica imune à crítica, mas também não deve ser transformado em alvo de ataques pessoais simplesmente porque tomou uma decisão de que alguém discorda.

Precisamos de mais participação cívica, não de menos. Precisamos de associações fortes, cidadãos atentos e ativistas incómodos quando for necessário. Mas precisamos também de preservar uma coisa que parece cada vez mais esquecida: educação.


Presidente Piteira Lopes Salva Atlântida Cine e Garante Continuidade Cultural No Icónico Cinema de Carcavelos


A Câmara Municipal de Cascais quer manter viva a memória cultural do concelho e a aquisição do Atlântida Cine, em Carcavelos, é um dos exemplos mais claros desse esforço. O antigo cinema, que durante décadas fez parte do quotidiano de várias gerações, poderá assim ganhar uma nova vida, num processo que mostra como a preservação de espaços culturais pode passar também por decisões concretas de investimento e de património.

Encerrado em maio de 2024, depois de mais de quatro décadas de atividade, o Atlântida Cine corria o risco de se juntar à lista de salas de cinema que desapareceram das localidades portuguesas, substituídas por grandes complexos comerciais ou simplesmente deixadas para trás pelas mudanças nos hábitos de consumo e de entretenimento. A decisão da autarquia de adquirir o espaço, por cerca de 600 mil euros, veio impedir que esse capítulo terminasse definitivamente.

Mais do que comprar um imóvel, Cascais está a comprar a possibilidade de preservar um lugar que faz parte da memória coletiva de Carcavelos. Para muitos habitantes, o Atlântida era simplesmente o cinema junto à estação, um espaço de encontro e de descoberta, onde durante anos se viram estreias, clássicos e cinema de autor. Era uma sala de proximidade, com uma identidade própria, integrada na vida da comunidade.

É precisamente essa dimensão que torna a decisão da autarquia relevante. Falar de política cultural não é apenas falar de grandes espetáculos, festivais ou equipamentos de grande dimensão. É também garantir que os espaços que ajudaram a construir a identidade cultural de uma comunidade não desaparecem quando deixam de ser imediatamente rentáveis ou quando a sua utilização original entra em declínio.

O caso de Carcavelos insere-se, aliás, numa estratégia mais abrangente de recuperação e valorização de espaços com história. O antigo Vitória Cine, também em Carcavelos, foi transformado no CriArte, um equipamento dedicado a espetáculos, exposições, ensaios e outras atividades culturais. O antigo edifício Cruzeiro é outro exemplo de um espaço que, depois de adquirido e requalificado pelo município, ganhou uma nova função ligada às artes e à cultura.

Há, nestas opções, uma ideia que merece ser valorizada: a cultura também se protege através do património. Um edifício pode deixar de ter utilidade para a função que originalmente desempenhava, mas isso não significa que tenha de perder o seu valor para a comunidade. Pelo contrário, pode ser precisamente a sua história e a ligação afetiva que mantém com a população a justificar a sua recuperação.

No caso do Atlântida Cine, o desafio começa agora. A aquisição é apenas o primeiro passo. Será necessário requalificar o espaço, resolver questões relacionadas com a sua utilização e criar condições para que volte a receber público. A intenção da autarquia é que o cinema continue a ter um papel central no equipamento, sem impedir que o espaço possa acolher outras iniciativas culturais.

Esse equilíbrio será determinante. Preservar o Atlântida não pode significar apenas manter uma sala fechada à espera de uma solução futura. O verdadeiro sucesso da operação estará em conseguir devolver-lhe vida, programação e público, fazendo com que volte a ser um espaço cultural ativo em Carcavelos.

É também nesse ponto que a aquisição ganha uma dimensão política mais ampla. Uma autarquia que investe na recuperação de espaços culturais está a assumir que a cultura é uma responsabilidade pública e que a sua preservação não pode depender exclusivamente das lógicas de mercado. Nem todos os equipamentos culturais são imediatamente rentáveis, nem esse deve ser o único critério para avaliar a sua importância.

Há lugares que valem pela atividade que geram, mas há outros que valem também pela memória que carregam e pela possibilidade de continuarem a gerar novas memórias. O Atlântida Cine pertence a essa segunda categoria.

Num concelho em crescimento e em constante transformação, preservar estes espaços é também uma forma de preservar identidade. Cascais não pode ser apenas um território de novos projetos e novas construções; tem também de saber reconhecer aquilo que já existe, aquilo que marcou gerações e aquilo que pode continuar a ter um papel na vida das comunidades.

A aquisição do Atlântida Cine mostra precisamente isso. Em vez de aceitar que mais uma sala de cinema desaparecesse, a autarquia decidiu intervir para tentar garantir que o espaço permanece ligado à cultura. É uma escolha que pode e deve ser discutida quanto ao investimento, ao modelo de gestão e ao futuro da programação, mas que parte de uma premissa difícil de contestar: quando um espaço cultural desaparece, nem sempre é possível recuperá-lo.

Por isso, preservar o Atlântida é mais do que conservar quatro paredes e uma sala de projeção. É manter aberta a possibilidade de que ali continuem a acontecer filmes, espetáculos, encontros e experiências culturais. É reconhecer que a cultura também se constrói nos lugares de proximidade, nos espaços que fazem parte do quotidiano e da memória das pessoas.

E, nesse sentido, o Atlântida Cine é um bom exemplo do esforço que Cascais tem vindo a fazer para não deixar morrer a sua cultura. Porque preservar a cultura não significa viver preso ao passado. Significa ter a capacidade de olhar para aquilo que o passado deixou e encontrar formas de lhe dar futuro.

26/08/26

Socialista Miguel Costa Matos Prepara Futuro Autárquico Com João Maria Jonet? A Questão Que Incomoda a Atual Liderança do PS Cascais


Há gestos políticos que valem mais do que muitas declarações públicas. O convite de Miguel Costa Matos a João Maria Jonet para participar numa atividade da Juventude Socialista é um desses gestos que merece ser lido para além da agenda imediata. À primeira vista, poderá parecer apenas mais uma iniciativa de aproximação entre jovens protagonistas da política cascalense. Mas, em política, sobretudo quando se fala de Cascais e de um horizonte eleitoral como 2029, as aproximações raramente são inocentes.

João Maria Jonet é hoje uma realidade política incontornável no concelho. À frente do movimento que lidera, conseguiu transformar uma candidatura de natureza independente numa força com representação institucional e afirmar um espaço político próprio fora das estruturas partidárias tradicionais. É precisamente essa capacidade de afirmação que torna particularmente relevante qualquer tentativa de aproximação por parte do Partido Socialista.

Miguel Costa Matos conhece bem o valor das estruturas juvenis, da mobilização política e da construção de redes. Foi secretário-geral da Juventude Socialista e mantém uma posição de destaque no Partido Socialista, sendo também deputado e uma das figuras do partido com intervenção política em Cascais. Por isso, o convite a João Maria Jonet pode ser interpretado como algo mais do que uma simples participação numa iniciativa da juventude partidária.

A questão que se coloca é inevitável: estará Miguel Costa Matos a começar a desenhar uma plataforma política para 2029 que ultrapasse as fronteiras tradicionais do Partido Socialista?

É uma hipótese que ganha especial interesse quando se olha para o percurso recente de Costa Matos dentro do PS Cascais. O deputado socialista apostou numa solução para a liderança da concelhia e viu o candidato que apoiava ser derrotado por João Ruivo. Essa derrota interna não significa, naturalmente, o desaparecimento da ambição política de Costa Matos. Pelo contrário. Para quem pretende construir um projeto de poder a médio prazo, uma eleição interna perdida pode representar apenas uma etapa.

E há uma etapa particularmente importante antes de 2029: a próxima disputa interna do PS Cascais.

João Ruivo venceu a batalha interna e é hoje o rosto da estrutura socialista no concelho. Mas o atual mandato partidário não representa necessariamente o ponto final da disputa. O PS Cascais terá novamente de escolher a sua liderança e será nessa altura que Miguel Costa Matos poderá voltar a apresentar o seu projeto, procurando capitalizar a experiência da derrota anterior e construir uma solução política mais abrangente.

É aqui que João Maria Jonet pode entrar na equação.

Uma coisa é disputar a liderança do PS com os instrumentos tradicionais do partido. Outra, bastante diferente, é tentar construir uma maioria política capaz de juntar militantes socialistas, independentes e figuras provenientes de movimentos cívicos que demonstraram capacidade eleitoral.

O movimento liderado por Jonet não é hoje uma abstração política. Tem representação no executivo municipal e ocupa um espaço próprio no mapa político de Cascais. Se Costa Matos estiver efetivamente a pensar em 2029, a aproximação a João Maria Jonet poderá representar uma tentativa de antecipar uma futura convergência.

Não significa que exista já um acordo. Não significa sequer que Jonet esteja disponível para uma candidatura conjunta com o PS. E seria precipitado afirmar que uma decisão desse género esteja tomada. Mas é legítimo questionar a razão política de colocar uma figura que lidera um movimento independente no espaço de uma iniciativa da Juventude Socialista.

A política faz-se também destes sinais.

E, em Cascais, o sinal é particularmente interessante: um deputado socialista que sofreu recentemente uma derrota numa disputa interna procura aproximar-se de uma figura que conseguiu construir uma base eleitoral própria fora do PS. Pode ser apenas um convite. Pode ser apenas uma iniciativa política sem consequências futuras. Mas também pode ser o primeiro movimento de uma estratégia que só será verdadeiramente compreendida em 2029.

Há, contudo, um paradoxo nesta estratégia. Se Miguel Costa Matos pretende construir uma solução política para 2029 assente numa aproximação a João Maria Jonet, terá primeiro de resolver a questão dentro da sua própria casa. O PS Cascais terá de voltar a escolher a sua liderança antes das próximas autárquicas, e essa eleição poderá ser o verdadeiro teste à capacidade de Costa Matos para transformar influência política em poder local.

A primeira tentativa não correu como esperava. Agora, terá de decidir se insiste no mesmo caminho ou se procura construir uma solução diferente, mais ampla, mais transversal e eventualmente capaz de incorporar protagonistas que até aqui estiveram fora da órbita socialista.

Nesse cenário, João Maria Jonet deixa de ser apenas o líder de um movimento independente e passa a poder ser visto como uma potencial peça de uma futura arquitetura eleitoral.

É precisamente por isso que o convite merece atenção.

Porque 2029 pode parecer distante, mas a política local começa a ser construída muito antes de aparecerem os cartazes, os candidatos e os programas eleitorais. E, em Cascais, talvez a próxima batalha não seja apenas entre PS e PSD.

Pode começar, antes disso, dentro do próprio PS, e acabar por procurar fora dele os aliados necessários para chegar a 2029.

24/08/26

Autarquia Investe 23M€ Na Cultura. Sete Novos Museus, Até 2029, Vão Colocar Cascais Como Um Ponto de Relevo No Roteiro Cultural Nacional e Internacional.



Cascais prepara-se para dar um novo e importante passo na valorização da sua cultura, do seu património e da sua identidade. A criação de sete novos museus e espaços culturais até 2029, num investimento de cerca de 23 milhões de euros, representa uma aposta ambiciosa que dá continuidade à estratégia que o município tem vindo a desenvolver na área da cultura. 

Mais do que aumentar o número de equipamentos culturais, este investimento permite recuperar património, preservar memórias e dar a conhecer diferentes dimensões da história de Cascais e das suas gentes. É também uma forma de garantir que o crescimento e a modernização do concelho acontecem sem perder aquilo que o torna único.

A estratégia ganha ainda maior relevância quando integrada no conceito do Bairro dos Museus, que procura criar uma verdadeira rede cultural, aproximando equipamentos, património e programação dos residentes e de quem visita o concelho. Cascais tem vindo, assim, a afirmar-se como um território onde a cultura ocupa um lugar central na sua identidade e na sua projeção externa.

Com esta nova geração de equipamentos, Cascais tem condições para dar um salto qualitativo e colocar definitivamente o concelho no roteiro internacional da cultura, reforçando a sua capacidade de atrair visitantes, criadores, investigadores e novos públicos. A cultura passa, desta forma, a ser também uma importante dimensão da afirmação de Cascais no mundo.

Cascais conta já com uma rede museológica diversificada, que abrange áreas como a história, a arqueologia, a cultura marítima, a música, a arte e a ciência. A criação de novos espaços vem consolidar esse percurso e reforçar o posicionamento do concelho como destino de cultura e conhecimento.

Investir em cultura é investir na identidade, na educação e na qualidade de vida, mas é também investir no futuro económico e turístico de Cascais. É uma visão de município que cresce, se moderniza e se projeta internacionalmente sem esquecer as suas raízes.

Porque preservar a memória não significa ficar parado no tempo. Significa saber de onde se vem para construir, com ambição, aquilo que se quer ser. E Cascais tem hoje a oportunidade de afirmar essa ambição também através da cultura.

20/08/26

Vereador da Oposição, João Maria Jonet, Promove Casas de Apostas



Há uma linha que, na vida pública, convém saber onde está. João Maria Jonet parece estar a aproximar-se dela, ou, pior, a fingir que ela não existe.

O problema não é João Maria Jonet gostar de futebol. Não é ser jovem. Não é ter opinião sobre desporto, participar em podcasts ou procurar formas alternativas de comunicar com uma geração que consome informação fora dos meios tradicionais. Tudo isso é legítimo e, em muitos casos, até desejável.

O problema começa quando essa presença pública acontece através de uma plataforma criada e financiada por uma casa de apostas.

Jonet não é hoje apenas o jovem comentador político que se tornou conhecido nas redes sociais. É vereador da Câmara Municipal de Cascais, eleito para o mandato 2025-2029. A própria Câmara identifica-o como vereador independente e a sua biografia oficial recorda um percurso que passa pelo comentário político, pela consultoria e pela participação em campanhas políticas.

Essa mudança de estatuto deveria mudar também a forma como olha para as suas escolhas públicas.

Pode parecer uma distinção demasiado severa. Afinal, dirão alguns, estamos perante um podcast sobre futebol. Não é uma intervenção numa reunião de Câmara. Não é uma campanha eleitoral. Não é uma decisão administrativa.

Mas a política contemporânea não funciona apenas dentro da sala de sessões da Câmara. A reputação, a influência e a capacidade de comunicação de um político também são construídas, ou destruídas, fora dela.

E é precisamente aí que a questão das apostas se torna particularmente séria.

Portugal não está perante um problema abstrato. Os dados oficiais do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências mostram que, em 2025, 17% dos jovens de 18 anos fizeram apostas online - 30% entre os rapazes e 5% entre as raparigas. A percentagem era de 15% em 2015. 

O próprio Estado reconhece os riscos. O enquadramento português exige que a publicidade a jogos e apostas seja socialmente responsável e que não encoraje práticas excessivas, não associe o jogo a sucesso ou êxito social e proteja particularmente menores e grupos vulneráveis.

Mais recentemente, uma análise do PLANAPP identificou precisamente como uma fragilidade a utilização de influenciadores e figuras públicas conhecidas nas estratégias de marketing das empresas de jogo, bem como a associação das apostas a estilos de vida e programas mediáticos de grande visibilidade. O documento chama ainda a atenção para a vulnerabilidade particular dos jovens adultos.

É difícil imaginar um exemplo mais claro daquilo que está em causa.

Quando uma casa de apostas cria ou financia conteúdos sobre futebol, não está simplesmente a promover entretenimento. Está a construir uma relação de proximidade com o público. Está a normalizar uma marca. Está a associar a sua actividade a pessoas, conversas, humor, desporto e referências culturais. E é precisamente através dessa normalização que o produto deixa de parecer uma actividade de risco e passa a integrar o quotidiano.

Por isso, a questão não é saber se Jonet diz, durante o podcast, alguma coisa particularmente irresponsável sobre apostas.

A questão é outra: o que significa emprestar a sua notoriedade e a sua credibilidade a uma plataforma cujo negócio é precisamente promover apostas?

É aqui que a desculpa de que “é só futebol” deixa de funcionar.

Jonet pode, naturalmente, considerar que o dinheiro envolvido compensa. Pode achar interessante o formato. Pode gostar genuinamente do ambiente desportivo. Pode entender que está simplesmente a exercer uma actividade de entretenimento. Nada disso é difícil de compreender.

Mas compreender não significa aceitar.

Porque um vereador não é apenas aquilo que faz durante as reuniões da Câmara. É também aquilo que legitima com a sua presença pública.

E este é um ponto especialmente importante quando falamos de alguém que construiu boa parte da sua imagem precisamente em torno da ideia de representar uma nova geração.

Que mensagem passa um jovem político aos jovens quando participa na promoção de uma indústria que o próprio Estado e as entidades públicas de saúde reconhecem como fonte de riscos aditivos?

É uma pergunta legítima. E merece uma resposta.

Aliás, há uma ironia particularmente desconfortável nesta história. Jonet tem defendido uma política de proximidade, de responsabilidade e de escrutínio sobre a utilização dos recursos públicos. Tem criticado, por exemplo, despesas municipais que considera excessivas e intervenções que entende não corresponderem ao interesse dos cascalenses.

É precisamente esse padrão de exigência que deve ser aplicado a si próprio.

A política não pode ser apenas uma actividade exercida quando dá jeito invocar o cargo. Quando se pretende autoridade para falar sobre Cascais, para representar os cascalenses e para tomar decisões que afectam a comunidade, essa responsabilidade não desaparece quando se acende a luz de um estúdio de podcast.

Não se pode querer simultaneamente a credibilidade institucional do vereador e a liberdade absoluta do entertainer.

É possível ser as duas coisas? Talvez. Mas só se houver uma fronteira muito clara entre ambas. E, neste caso, essa fronteira parece perigosamente esbatida.

Não estamos a dizer que Jonet não pode falar de futebol. Pelo contrário. Que fale. Que critique jogadores. Que discuta tácticas. Que faça humor. Que seja irreverente. Que tenha uma carreira mediática.

Mas há uma diferença entre participar num programa de futebol e associar a sua imagem a uma plataforma comercial de apostas.

E essa diferença é suficientemente importante para que um político tenha obrigação de a reconhecer.

Também não é necessário presumir que Jonet recebeu dinheiro para afirmar que existe um problema ético. Se existe remuneração, parceria ou qualquer outra contrapartida, isso deve ser tornado claro. Se não existe, tanto melhor: caber-lhe-á explicar publicamente em que condições participa. O que não podemos fazer é transformar uma questão legítima de responsabilidade pública numa acusação que não esteja sustentada por factos.

É justamente por isso que Jonet deve assumir.

Assumir a escolha. Explicar a parceria. Explicar as condições. Explicar porque entende que a sua participação é compatível com o exercício de funções públicas. E, sobretudo, explicar que responsabilidade entende ter perante os jovens que tantas vezes foram apresentados como parte central da sua identidade política.

Porque o problema não é João Maria Jonet ter 28 anos.

O problema é já não ter apenas 28 anos.

Tem um cargo público. Tem responsabilidades públicas. Tem influência pública. E, como ele próprio sabe melhor do que ninguém, influência é responsabilidade.

O dinheiro pode ser apelativo. O futebol pode ser apaixonante. O podcast pode ser divertido. A oportunidade mediática pode ser excelente.

Mas nem todas as oportunidades que aparecem a um político devem ser aproveitadas.

Há momentos em que é preciso escolher.

Ou se quer ser político, com as responsabilidades e os constrangimentos que isso implica, ou se quer ser entertainer, com a liberdade e a lógica comercial próprias do entretenimento.

As duas coisas podem até coexistir em determinadas circunstâncias.

Mas quando o entretenimento passa a servir uma indústria de apostas, e quando quem participa nesse entretenimento é simultaneamente um representante eleito dos cidadãos, a compatibilidade deixa de ser evidente.

E é precisamente aí que João Maria Jonet tem de assumir a responsabilidade pela escolha que fez.


04/08/26

Declarações de Miguel Costa Matos Causam Desconforto Dentro do PS Cascais



A realização da Assembleia Municipal extraordinária solicitada pelo Partido Socialista de Cascais para discutir o denominado “caso Hilton” continua a gerar forte polémica política, prolongando-se agora para além do próprio debate realizado em plenário.

O pedido da sessão extraordinária teve como objetivo permitir ao executivo municipal, liderado por Nuno Piteira Lopes, prestar esclarecimentos sobre o processo. Apesar de terem existido constrangimentos relativamente ao envio prévio das questões por parte da bancada socialista, que foram enviadas fora de tempo, o presidente da Câmara respondeu, durante a sessão, a todas as perguntas que lhe foram dirigidas.

Contudo, poucas horas após a reunião, Miguel Costa Matos, líder da bancada do PS na Assembleia Municipal, divulgou um vídeo nas redes sociais em que acusa o executivo de não ter respondido às questões colocadas durante o debate, uma posição que contrasta com o vídeo da própria reunião (disponível no YouTube).

A publicação do vídeo do antigo líder da JS motivou reações críticas nas redes sociais, incluindo de figuras históricas do Partido Socialista em Cascais. Entre elas, Carlos Nogueira, antigo vereador socialista, e Fernanda Gonçalves, antiga presidente de junta eleita pelo PS, manifestaram publicamente o seu desagrado relativamente à estratégia adotada pela direção concelhia, considerando que o discurso apresentado os envergonha representa um “vale tudo” que não deveria existir na política.

As críticas provenientes de antigos responsáveis socialistas evidenciam também divisões internas quanto à forma como o partido tem conduzido a oposição ao executivo camarário, sendo confrangedor a falta de preparação dos eleitos para os cargos representativos que ocupam.


27/07/26

Não Se Deixe Enganar. Conheça os Factos da Venda dos Terrenos do Hilton da Parede.


Nas últimas semanas voltou a instalar-se uma enorme confusão em torno da venda dos chamados "terrenos do Hilton". A forma como este assunto tem sido apresentado em alguns espaços públicos e nas redes sociais tem levado muitos munícipes a formar uma ideia completamente errada sobre aquilo que verdadeiramente está em causa.

É precisamente por isso que importa recordar os factos.

Ao contrário do que tem sido insinuado, a polémica não diz respeito ao terreno onde está a ser construído o hotel. O terreno que motivou a controvérsia corresponde a uma parcela com apenas 830 metros quadrados, representando cerca de 5% da área total da operação urbanística.

Mais importante ainda, essa parcela não possui capacidade construtiva. Ou seja, nenhum metro quadrado do Hotel Hilton está a ser edificado nesse terreno, contrariando a ideia, repetidamente difundida, de que o município teria alienado o terreno onde se encontra implantado o empreendimento.

Também o valor da venda tem sido apresentado sem qualquer contexto. A realidade é que esta parcela foi alienada por um valor superior ao da avaliação realizada por peritos independentes, um facto frequentemente omitido nas narrativas que procuram lançar suspeitas sobre o processo.

Convém igualmente recordar que um investimento desta dimensão não se resume ao preço de aquisição de uma pequena parcela de terreno.

Além do investimento necessário para a aquisição dos vários terrenos e para a construção do hotel, o grupo promotor decidiu sujeitar todo o empreendimento a uma certificação ambiental, opção que representou um acréscimo de cerca de 20% no custo inicialmente previsto para a obra, precisamente para assegurar o cumprimento dos mais exigentes padrões ambientais.

A isso juntou-se ainda um contributo voluntário de aproximadamente 4,5 milhões de euros a uma universidade pública, assumido pelo grupo como uma expressão da sua política de responsabilidade social.

Importa igualmente recordar que este projeto esteve sujeito a um longo e exigente processo de licenciamento. O novo Hotel Hilton levou cerca de quinze anos até reunir todas as condições necessárias para avançar, tendo passado pelo escrutínio das entidades competentes e cumprido os procedimentos legalmente previstos.

Naturalmente, qualquer cidadão tem o direito de apresentar denúncias ou suscitar dúvidas sobre atos da Administração Pública. Esse é um direito fundamental num Estado de Direito.

Contudo, uma denúncia não constitui prova de ilegalidade, nem substitui as decisões das entidades competentes ou dos tribunais. Da mesma forma, a repetição constante de determinadas acusações não as transforma em factos.

O que verdadeiramente preocupa é que se continue a promover uma narrativa simplificada, omitindo elementos essenciais do processo e induzindo muitos cidadãos em erro. Quando se faz acreditar que foi vendido "o terreno do hotel", quando, na realidade, está em causa uma pequena parcela sem capacidade construtiva, cria-se uma percepção pública que não corresponde aos factos, e usa-se a justiça para fazer política.

23/07/26

Cartaz de Luxo nas Festas do Mar de 2026


A apresentação do cartaz das Festas do Mar 2026 volta a colocar Cascais no centro da agenda cultural nacional. Entre os dias 20 e 30 de agosto, a Baía de Cascais será, mais uma vez, palco de um dos eventos mais emblemáticos do verão português, reunindo alguns dos maiores nomes da música lusófona, sempre com entrada livre.

Mais do que um festival, as Festas do Mar são um verdadeiro património cultural do concelho. Ao longo de mais de uma década, o evento consolidou-se como o maior festival de música totalmente gratuito de Portugal, atraindo centenas de milhares de visitantes e demonstrando que é possível democratizar o acesso à cultura sem abdicar da qualidade artística.

O cartaz de 2026 reflete essa ambição. Daniela Mercury, Diogo Piçarra, Os Quatro e Meia, Dillaz, David Fonseca, Matias Damásio, Mariza Liz, Carlão, Luís Trigacheiro, João Pedro Pais e Fingertips são alguns dos artistas que irão passar pelo palco principal, representando diferentes gerações e estilos musicais. Esta diversidade permite que o festival continue a ser um espaço de encontro para famílias, jovens e visitantes de todas as idades.

Mas as Festas do Mar são muito mais do que concertos. A gastronomia, o artesanato, a animação de rua, a Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes e o tradicional espetáculo de fogo de artifício fazem parte de uma programação que celebra a identidade marítima de Cascais e valoriza as suas tradições. A localização privilegiada da Baía, entre a Cidadela e o centro histórico, transforma cada edição numa experiência única, difícil de replicar em qualquer outro ponto do país.

Há também um impacto económico e turístico que não pode ser ignorado. Durante os dias do festival, hotéis, restaurantes, comércio local e serviços beneficiam do elevado número de visitantes nacionais e estrangeiros, reforçando a posição de Cascais como um destino de excelência para o turismo cultural e de eventos.

Num contexto em que a maioria dos grandes festivais de verão apresenta bilhetes cada vez mais caros, as Festas do Mar mantêm um princípio diferenciador: oferecer espetáculos de elevada qualidade de forma totalmente gratuita. Esta aposta representa um importante compromisso com a inclusão, permitindo que qualquer pessoa possa desfrutar de música ao vivo sem barreiras económicas.

20/07/26

Cartão Viver Cascais Oferece 24h Diárias de Bicicleta Elétrica Para Quem Vive, Trabalha ou Estuda em Cascais


Cascais volta a dar um passo firme na construção de um concelho mais sustentável, acessível e amigo do ambiente. A mais recente medida da Câmara Municipal permite agora aos titulares do Cartão Viver Cascais usufruírem de viagens gratuitas nas bicicletas elétricas Bird, reforçando uma estratégia de mobilidade que tem colocado o concelho na linha da frente das políticas públicas de transporte sustentável.

A iniciativa destina-se a residentes, estudantes e trabalhadores com Cartão Viver Cascais ativo, que passam a poder utilizar gratuitamente bicicletas elétricas durante períodos até 60 minutos por viagem, sem limite diário de utilizações. Trata-se de um incentivo claro à substituição do automóvel em deslocações de curta distância, promovendo uma alternativa mais ecológica, prática e eficiente para a mobilidade urbana.

Esta medida representa mais um passo importante na política de mobilidade do concelho, que nos últimos anos se tem destacado pela implementação de soluções inovadoras, como os transportes públicos gratuitos, a expansão da rede MobiCascais, a aposta em autocarros movidos a hidrogénio e o desenvolvimento de infraestruturas dedicadas à mobilidade suave. Uma estratégia integrada que procura reduzir as emissões de carbono, melhorar a qualidade do ar e oferecer melhores condições de deslocação à população.

Para beneficiar desta nova vantagem, os utilizadores apenas necessitam de instalar a aplicação Bird, registar-se com o mesmo endereço de e-mail associado à conta MyCascais e selecionar a opção "Viver Cascais". Após validação, poderão utilizar as bicicletas elétricas em todo o território do concelho, usufruindo de uma solução de transporte cómoda e sustentável.

Mais do que uma nova funcionalidade, esta iniciativa demonstra a continuidade de uma visão estratégica para Cascais: incentivar hábitos de mobilidade mais sustentáveis, reduzir a dependência do transporte individual motorizado e aproximar cada vez mais os cidadãos de soluções de transporte ambientalmente responsáveis.

14/07/26

Cascais Não Perdeu Bandeiras Azuis. Há Uma Diferença Que Importa Explicar Para Que Ninguém Seja Enganado.

Nos últimos dias, multiplicaram-se as afirmações de que Cascais "perdeu" Bandeiras Azuis nesta época balnear. A frase é apelativa, serve manchetes e alimenta o ruído político. O problema é que não corresponde à realidade.

É verdade que o concelho tem este ano menos praias distinguidas com a Bandeira Azul. Mas uma coisa é haver menos bandeiras hasteadas, outra, bem diferente, é afirmar que Cascais perdeu o galardão por incumprimento dos critérios exigidos.

A distinção Bandeira Azul depende de uma candidatura apresentada pelo promotor de cada praia. Não é um prémio atribuído automaticamente, nem um direito adquirido. Se uma praia não é candidata, naturalmente não pode ser distinguida.

Foi precisamente isso que aconteceu em Cascais.

Algumas praias do concelho encontram-se a ser alvo de importantes intervenções, nomeadamente ao nível da estabilização e segurança das arribas. Perante essa realidade, a autarquia optou por não apresentar candidatura dessas praias ao programa Bandeira Azul durante esta época balnear. Trata-se de uma decisão de prudência e responsabilidade, que evita candidatar praias que estão temporariamente condicionadas por obras destinadas precisamente a melhorar as condições de segurança e preservação ambiental.

Confundir esta opção com uma alegada "perda" de Bandeiras Azuis é, no mínimo, uma simplificação abusiva. No máximo, é uma tentativa deliberada de criar uma narrativa política que não resiste aos factos.

Importa recordar que o Programa Bandeira Azul avalia critérios exigentes relacionados com a qualidade da água, gestão ambiental, segurança, serviços e educação ambiental. Uma praia que não é candidata não foi reprovada; simplesmente não entrou no processo de avaliação desse ano.

Por isso, quem afirma que Cascais perdeu Bandeiras Azuis está a induzir os cidadãos em erro. O número de bandeiras diminuiu porque diminuiu o número de candidaturas, não porque o concelho tenha deixado de cumprir os critérios ambientais ou de qualidade exigidos pelo programa.

Mais, quando as intervenções atualmente em curso estiverem concluídas, tudo indica que essas praias voltarão a reunir condições para serem novamente candidatas. Se isso acontecer, é expectável que o número de Bandeiras Azuis em Cascais volte a aumentar já na próxima época balnear.

Nessa altura será interessante verificar se aqueles que hoje proclamam, com grande convicção, que Cascais "perdeu" Bandeiras Azuis terão a mesma disponibilidade para reconhecer que nunca as perdeu verdadeiramente. Porque, em política, a crítica é legítima. Mas também deveria ser obrigatório respeitar a diferença entre um facto e uma narrativa.

10/07/26

Editorial: A Pressão, As Mensagens e Os Insultos Nada Mudarão. Vamos Continuar Firmes No Nosso Propósito.

O Cascais em Reflexão nasceu com um propósito muito claro: promover um espaço de análise, opinião e debate assente na independência editorial, na pluralidade de ideias e no respeito pelos factos.

Os nossos autores escrevem com inteira liberdade intelectual e são responsáveis pelas suas opiniões, sem qualquer condicionamento político, partidário ou pessoal. Essa independência é um princípio do qual não abdicamos e que continuará a orientar o nosso trabalho.

Nos últimos tempos, temos constatado um aumento de tentativas de pressão para que este espaço editorial assuma um papel de confronto sistemático com a Câmara Municipal de Cascais e com o seu executivo. Há quem pretenda transformar um órgão de reflexão num instrumento de combate político ou pessoal, esperando que publiquemos críticas gratuitas, desprovidas de fundamentação ou movidas por agendas que nada têm a ver com o interesse público.

Essa não é, nem será, a nossa missão.

É igualmente evidente que parte dessas pressões provém de pessoas que, em diferentes momentos, estiveram próximas ou integraram projetos ligados à governação local e que, por razões diversas, deixaram de o fazer. Não nos compete julgar os motivos desses afastamentos, nem alimentar ressentimentos que possam deles resultar. Também não permitiremos que eventuais desavenças pessoais sejam transportadas para as páginas desta publicação.

O Cascais em Reflexão não será palco de ajustes de contas, nem veículo para campanhas de descredibilização motivadas por animosidades individuais. Da mesma forma que não hesitaremos em publicar análises críticas quando estas forem sustentadas por factos, argumentos e pelo interesse dos munícipes, recusaremos sempre a crítica pela crítica, o ataque gratuito ou a insinuação como método de intervenção pública.

A todos os que acompanham o Cascais em Reflexão, deixamos uma garantia: continuaremos a pautar a nossa atuação pela independência, pela honestidade intelectual e pelo respeito por todos os intervenientes da vida pública, independentemente das suas funções, filiações ou posições políticas.

Seremos, como sempre procurámos ser, um espaço de reflexão livre, responsável e comprometido exclusivamente com o interesse de Cascais.

09/07/26

PS de Cascais Propôs um Plano de Abastecimento de Água Idêntico ao de Almada. Piteira Lopes Evitou Este Descalabro.

Os acontecimentos que se vivem atualmente em Almada constituem um sério aviso para todos os municípios portugueses. A declaração de situação de alerta devido às falhas no abastecimento de água, com cortes programados e milhares de munícipes afetados, demonstra que a gestão de um recurso tão essencial não admite improvisações nem modelos mal concebidos.

Mais preocupante ainda é perceber que esta crise não acontece por falta de água.

Portugal atravessa uma situação de elevada disponibilidade hídrica. Os investimentos realizados ao longo dos últimos anos nas infraestruturas de abastecimento e as chuvas que afetaram o país, permitem hoje garantir níveis de segurança que, em condições normais, afastam cenários desta natureza. Quando um município chega ao ponto de decretar situação de alerta, o problema dificilmente está no recurso. Está na gestão.

Há não muito tempo, o Partido Socialista de Cascais apresentou uma proposta para a reorganização da gestão do abastecimento de água assente num modelo idêntico ao que hoje vigora em Almada. Felizmente para os cascalenses, essa proposta foi recusada pelo PSD que governa o município.

A decisão revelou-se acertada. Os serviços públicos essenciais não são espaços para experiências administrativas e alterações estruturais cuja eficácia nem sempre está demonstrada. Os serviços, como o abastecimento de água, por exemplo, exigem prudência, estabilidade, competência técnica e uma gestão focada na continuidade do serviço.

Foi essa segunda visão que prevaleceu em Cascais.

O PSD recusou alterar um modelo que, apesar de algumas falhas, funciona, que tem assegurado elevados níveis de fiabilidade e que responde às necessidades da população. Hoje, olhando para o que sucede em Almada, é impossível não concluir que essa foi uma decisão responsável.

Os munícipes de Almada estão hoje a pagar o preço de opções que se revelaram incapazes de garantir um abastecimento normal.

Se Cascais tivesse seguido o caminho proposto pelo Partido Socialista, corria hoje o risco de enfrentar dificuldades semelhantes às que afetam milhares de famílias em Almada.

Felizmente, quem lidera a autarquia disse "não", e essa rejeição, nos últimos dias, com elevadas temperaturas, tinha causado um verdadeiro caos na vida dos cascalences e afetado milhares de negócios.

07/07/26

Nuno Piteira Lopes Aperta Governo e Exige Reformas

O presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, voltou a assumir uma posição de defesa intransigente do poder local, apelando ao Governo para avançar com uma reforma estrutural que reforce a autonomia dos municípios e lhes permita responder com maior eficácia às necessidades das populações.

A intervenção, realizada no âmbito das Jornadas Parlamentares da Aliança Democrática, destacou-se por uma característica pouco comum na política portuguesa: a capacidade de colocar os interesses das autarquias e do serviço público acima da lógica partidária. Perante um Governo da mesma área política, Nuno Piteira Lopes optou por defender aquilo que considera essencial para o futuro da administração local, sem hesitar em pedir mudanças profundas.

Entre as principais propostas apresentadas está a revisão da Lei das Finanças Locais, o reforço da descentralização de competências e uma reforma do modelo de funcionamento do poder local, permitindo que os municípios disponham de maior capacidade de decisão e de melhores instrumentos para responder aos desafios atuais.

A posição do autarca surge num momento em que muitos municípios continuam a alertar para as limitações impostas por um modelo excessivamente centralizado. Apesar das competências entretanto transferidas para as autarquias, várias câmaras defendem que essa descentralização não foi acompanhada pelos recursos financeiros e pelos mecanismos de autonomia necessários para garantir uma resposta eficaz às populações.

Ao colocar estas matérias na agenda política nacional, Nuno Piteira Lopes assume uma postura que ultrapassa os interesses imediatos do concelho de Cascais. A defesa de um poder local mais forte, financeiramente mais autónomo e administrativamente mais eficiente é apresentada como uma condição indispensável para melhorar a qualidade dos serviços públicos e aproximar as decisões dos cidadãos.

A intervenção evidencia também uma forma de exercer funções públicas que privilegia a coerência institucional. Em vez de ajustar o discurso em função da cor política do Governo, o presidente da Câmara de Cascais optou por manter uma posição consistente sobre matérias que tem vindo a defender ao longo dos últimos anos, nomeadamente a necessidade de reforçar o papel das autarquias na organização do Estado.

Esta iniciativa do autarca foi encarada como um sinal de independência política e de compromisso com o interesse público. A mensagem deixada nas Jornadas Parlamentares reforça a ideia de quando estão em causa os interesses das populações e a qualidade do serviço público, a defesa de reformas estruturais deve prevalecer sobre qualquer lógica de alinhamento partidário.