Quem dirige uma instituição de ensino tem, naturalmente, o dever de zelar pela segurança dos alunos, tranquilizar as famílias sempre que possível e agir com prudência perante qualquer situação que possa representar um risco. Mas há uma diferença fundamental entre agir com responsabilidade e alimentar alarmismos sem fundamento técnico.
O episódio relacionado com os trabalhos de remoção de amianto nas antigas instalações da Escola Secundária de Cascais levanta precisamente essa questão.
A diretora da escola terá enviado às famílias uma comunicação alarmista, transmitindo a ideia de que o estabelecimento de ensino teria de encerrar devido aos trabalhos de remoção de amianto. Uma posição que contrasta frontalmente com a informação posteriormente transmitida pelos responsáveis da Proteção Civil, da Autoridade de Saúde Local e da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) , após a avaliação realizada.
O documento é claro quanto aos fundamentos dessa conclusão. A ACT realizou uma visita técnica aos trabalhos e confirmou o cumprimento das regras de segurança legalmente exigidas. A zona de remoção do amianto encontrava-se devidamente delimitada e a Autoridade de Saúde Local validou que não existia risco de exposição fora do recinto da obra, incluindo nas novas instalações da escola e nas habitações envolventes. Acresce que as três entidades asseguraram o acompanhamento e a monitorização dos trabalhos.
Há ainda um esclarecimento particularmente relevante: o parecer sanitário inicialmente emitido partia do pressuposto de que as aulas decorriam nas antigas instalações, quando, na realidade, a comunidade escolar já tinha transitado para a nova escola. Ou seja, a remoção do amianto ocorre na antiga escola e os alunos já estão na nova.
Perante estes factos, importa colocar uma questão simples: com que fundamento se transmite às famílias a perspectiva de um encerramento quando as entidades tecnicamente competentes asseguram que existem condições de segurança para o normal funcionamento da escola?
A preocupação com a saúde dos alunos é legítima e ninguém espera de uma diretora que ignore riscos potenciais. Pelo contrário, espera-se que seja a primeira a exigir esclarecimentos, a procurar informação rigorosa e a agir com ponderação. Mas essa responsabilidade não lhe confere o direito de substituir avaliações técnicas por convicções pessoais, muito menos de transformar dúvidas em certezas ou receios em alarmes junto das famílias.
O que este episódio parece revelar é uma preocupante falta de confiança nas instituições que têm competência legal e técnica para avaliar a situação. Ou, pior ainda, a convicção de que o conhecimento empírico de quem dirige a escola deve prevalecer sobre a avaliação de especialistas, mesmo quando não existe fundamento técnico conhecido que sustente essa posição.
Uma diretora de escola não é apenas uma gestora administrativa ou pedagógica. É também uma figura de referência para alunos, professores, funcionários e encarregados de educação. A sua conduta transmite valores, estabelece padrões e contribui para a formação cívica de toda uma comunidade.
Por isso, custa compreender que alguém com tamanha responsabilidade educativa possa adotar uma postura que, em vez de promover a confiança na informação rigorosa, pareça alimentar a desconfiança e a inquietação. Não nos parece que este seja um exemplo cívico para quem diariamente se apresenta perante centenas de alunos e tem a responsabilidade de os preparar para uma sociedade onde o pensamento crítico, o rigor e o respeito pelas instituições devem ser valores fundamentais.
Talvez esteja na altura de levarmos a sério a ideia de que a cidadania não se ensina apenas aos alunos. Também os adultos que exercem funções de autoridade, incluindo os responsáveis pelas escolas, devem demonstrar capacidade para distinguir factos de suposições, prudência de alarmismo e responsabilidade de protagonismo.
Afinal, de pouco serve ensinar aos jovens a importância de verificar fontes, respeitar o conhecimento especializado e fundamentar as suas opiniões se, perante uma situação concreta, os próprios responsáveis educativos parecem dispensar esses princípios.
Talvez a disciplina de cidadania deva ser pensada não só para alunos, mas também para docentes.


