27/08/26

Editorial: Ativismo Com Insultos Não é Ativismo! É Má-Criação!


O trabalho associativo é, por definição, uma parte importante de uma sociedade civil viva. Quando é feito de forma voluntária, desinteressada e com genuína preocupação pelo bem comum, merece respeito e reconhecimento. Quem dedica tempo e energia à defesa de uma causa presta um serviço à comunidade.

Mas há uma fronteira que não pode ser ultrapassada. O trabalho associativo não confere autoridade sobre o espaço público.

Participar, intervir, reivindicar, pressionar e discordar são direitos, e são direitos essenciais numa democracia. Insultar não é. O facto de alguém dedicar anos a uma causa, ter visibilidade pública ou reunir à sua volta um grupo significativo de apoiantes não o coloca acima dos restantes cidadãos, nem lhe confere qualquer espécie de mandato para substituir quem tem a responsabilidade política de decidir.

O espaço público não tem donos.

Uma praia, uma marginal, um jardim, uma rua, um equipamento municipal ou qualquer outro espaço que pertença à comunidade não passa a ser propriedade de quem mais intensamente o defende. Tem responsáveis públicos, eleitos ou nomeados por quem foi democraticamente escolhido para exercer funções. Podemos concordar ou discordar das suas decisões. Podemos criticá-las duramente. Podemos exigir explicações, mobilizar cidadãos e contestar políticas.

O que não podemos é confundir influência cívica com autoridade democrática.

Nas últimas semanas, Cascais tem assistido a um comportamento que merece reflexão. Um ativista com reconhecido destaque público tem, na nossa opinião, ultrapassado em algumas intervenções nas redes sociais os limites daquilo que deve ser a decência no debate público, dirigindo ataques pessoais e insultos a um político que, concorde-se ou não com a sua atuação, foi democraticamente eleito para o cargo que ocupa.

Não está aqui em causa retirar mérito ao trabalho de Miguel Lacerda, nem à sua dedicação à defesa dos oceanos e da costa de Cascais. Essa dedicação é conhecida e, em muitos aspetos, merece ser valorizada. Mas mérito numa causa não se converte em autoridade sobre a decisão política, e muito menos em licença para insultar.

Há também uma dimensão particularmente deselegante nesta forma de confronto. Um eleito ou responsável político está sujeito a regras institucionais e a uma contenção que não se aplicam da mesma maneira a um cidadão que intervém nas redes sociais. A resposta de quem exerce funções públicas tem limites - legais, institucionais e políticos - que o cidadão comum não tem. Usar essa assimetria para elevar o tom do confronto pessoal não é coragem cívica. É, pelo contrário, uma forma pouco saudável e até cobarde de exercer influência.

É igualmente preocupante observar a forma como, por vezes, uma parte dos seguidores transforma o insulto em espetáculo e a agressividade em demonstração de pertença. Como se uma causa justa pudesse justificar todos os comportamentos de quem a defende. Não pode.

A democracia não se mede apenas pela liberdade de protestar. Mede-se também pela capacidade de aceitar que os outros têm o mesmo direito de participar, de discordar e, sobretudo, de exercer as funções para as quais foram escolhidos.

Quem trabalha pela comunidade não vale mais do que quem não o faz. Quem tem razão numa determinada matéria não passa, por isso, a ter o direito de decidir por todos. E quem exerce funções públicas não fica imune à crítica, mas também não deve ser transformado em alvo de ataques pessoais simplesmente porque tomou uma decisão de que alguém discorda.

Precisamos de mais participação cívica, não de menos. Precisamos de associações fortes, cidadãos atentos e ativistas incómodos quando for necessário. Mas precisamos também de preservar uma coisa que parece cada vez mais esquecida: educação.