27/08/26

Presidente Piteira Lopes Salva Atlântida Cine e Garante Continuidade Cultural No Icónico Cinema de Carcavelos


A Câmara Municipal de Cascais quer manter viva a memória cultural do concelho e a aquisição do Atlântida Cine, em Carcavelos, é um dos exemplos mais claros desse esforço. O antigo cinema, que durante décadas fez parte do quotidiano de várias gerações, poderá assim ganhar uma nova vida, num processo que mostra como a preservação de espaços culturais pode passar também por decisões concretas de investimento e de património.

Encerrado em maio de 2024, depois de mais de quatro décadas de atividade, o Atlântida Cine corria o risco de se juntar à lista de salas de cinema que desapareceram das localidades portuguesas, substituídas por grandes complexos comerciais ou simplesmente deixadas para trás pelas mudanças nos hábitos de consumo e de entretenimento. A decisão da autarquia de adquirir o espaço, por cerca de 600 mil euros, veio impedir que esse capítulo terminasse definitivamente.

Mais do que comprar um imóvel, Cascais está a comprar a possibilidade de preservar um lugar que faz parte da memória coletiva de Carcavelos. Para muitos habitantes, o Atlântida era simplesmente o cinema junto à estação, um espaço de encontro e de descoberta, onde durante anos se viram estreias, clássicos e cinema de autor. Era uma sala de proximidade, com uma identidade própria, integrada na vida da comunidade.

É precisamente essa dimensão que torna a decisão da autarquia relevante. Falar de política cultural não é apenas falar de grandes espetáculos, festivais ou equipamentos de grande dimensão. É também garantir que os espaços que ajudaram a construir a identidade cultural de uma comunidade não desaparecem quando deixam de ser imediatamente rentáveis ou quando a sua utilização original entra em declínio.

O caso de Carcavelos insere-se, aliás, numa estratégia mais abrangente de recuperação e valorização de espaços com história. O antigo Vitória Cine, também em Carcavelos, foi transformado no CriArte, um equipamento dedicado a espetáculos, exposições, ensaios e outras atividades culturais. O antigo edifício Cruzeiro é outro exemplo de um espaço que, depois de adquirido e requalificado pelo município, ganhou uma nova função ligada às artes e à cultura.

Há, nestas opções, uma ideia que merece ser valorizada: a cultura também se protege através do património. Um edifício pode deixar de ter utilidade para a função que originalmente desempenhava, mas isso não significa que tenha de perder o seu valor para a comunidade. Pelo contrário, pode ser precisamente a sua história e a ligação afetiva que mantém com a população a justificar a sua recuperação.

No caso do Atlântida Cine, o desafio começa agora. A aquisição é apenas o primeiro passo. Será necessário requalificar o espaço, resolver questões relacionadas com a sua utilização e criar condições para que volte a receber público. A intenção da autarquia é que o cinema continue a ter um papel central no equipamento, sem impedir que o espaço possa acolher outras iniciativas culturais.

Esse equilíbrio será determinante. Preservar o Atlântida não pode significar apenas manter uma sala fechada à espera de uma solução futura. O verdadeiro sucesso da operação estará em conseguir devolver-lhe vida, programação e público, fazendo com que volte a ser um espaço cultural ativo em Carcavelos.

É também nesse ponto que a aquisição ganha uma dimensão política mais ampla. Uma autarquia que investe na recuperação de espaços culturais está a assumir que a cultura é uma responsabilidade pública e que a sua preservação não pode depender exclusivamente das lógicas de mercado. Nem todos os equipamentos culturais são imediatamente rentáveis, nem esse deve ser o único critério para avaliar a sua importância.

Há lugares que valem pela atividade que geram, mas há outros que valem também pela memória que carregam e pela possibilidade de continuarem a gerar novas memórias. O Atlântida Cine pertence a essa segunda categoria.

Num concelho em crescimento e em constante transformação, preservar estes espaços é também uma forma de preservar identidade. Cascais não pode ser apenas um território de novos projetos e novas construções; tem também de saber reconhecer aquilo que já existe, aquilo que marcou gerações e aquilo que pode continuar a ter um papel na vida das comunidades.

A aquisição do Atlântida Cine mostra precisamente isso. Em vez de aceitar que mais uma sala de cinema desaparecesse, a autarquia decidiu intervir para tentar garantir que o espaço permanece ligado à cultura. É uma escolha que pode e deve ser discutida quanto ao investimento, ao modelo de gestão e ao futuro da programação, mas que parte de uma premissa difícil de contestar: quando um espaço cultural desaparece, nem sempre é possível recuperá-lo.

Por isso, preservar o Atlântida é mais do que conservar quatro paredes e uma sala de projeção. É manter aberta a possibilidade de que ali continuem a acontecer filmes, espetáculos, encontros e experiências culturais. É reconhecer que a cultura também se constrói nos lugares de proximidade, nos espaços que fazem parte do quotidiano e da memória das pessoas.

E, nesse sentido, o Atlântida Cine é um bom exemplo do esforço que Cascais tem vindo a fazer para não deixar morrer a sua cultura. Porque preservar a cultura não significa viver preso ao passado. Significa ter a capacidade de olhar para aquilo que o passado deixou e encontrar formas de lhe dar futuro.