Há gestos que, mesmo quando formalmente legítimos, não são politicamente neutros.
A receção da Santa Casa da Misericórdia de Cascais a André Ventura, líder do Chega, no dia seguinte à apresentação de uma moção de censura ao Governo, é um desses casos.
Não está em causa o trabalho da Santa Casa. Nem a sua missão social. Nem o seu mérito. Muito menos defendemos qualquer espécie de “cerco sanitário” ao Chega ou a qualquer outro partido democrático.
Está em causa uma coisa muito mais simples. Estamos a falar da ausência do sentido institucional e do respeito pelo momento político.
O Chega apresentou uma moção de censura. Fê-lo como instrumento de confronto político e de pressão sobre o Governo. No dia seguinte, o seu líder é recebido por uma instituição com o peso, a história e o prestígio da Santa Casa da Misericórdia de Cascais.
Será legítimo? Naturalmente. Mas será sensato? Não nos parece, e é precisamente isso que está em causa.
Porque as instituições não vivem apenas daquilo que dizem. Vivem também dos gestos que fazem, das imagens que produzem e das associações que inevitavelmente criam. E uma instituição da dimensão SCMC tem de saber que o calendário também comunica.
Não se pode invocar a neutralidade institucional para ignorar o contexto. Neutralidade não é abrir as portas indistintamente e depois fingir que o momento não interessa. Neutralidade é precisamente ter a prudência necessária para não transformar uma instituição de todos em cenário, ainda que involuntário, da disputa partidária.
Ninguém está a pedir que André Ventura seja ostracizado. Ninguém está a pedir que o Chega seja silenciado. A democracia não funciona assim. Mas também não podemos aceitar a ideia de que, em nome da democracia, tudo é indiferente, porque não é.
Uma instituição como a Santa Casa deve estar acima da luta partidária. Deve ser um espaço de confiança, de coesão e de serviço à comunidade. E quanto maior é o seu prestígio, maior é a responsabilidade de quem a dirige.
Por isso, a pergunta não é se a Santa Casa podia receber André Ventura. A pergunta é por que razão escolheu fazê-lo precisamente naquele momento, e, sobretudo, se quem tomou essa decisão não percebeu o que ela representava.
É aqui que reside a nossa crítica. Não queremos a Santa Casa contra o Chega. Queremos a Santa Casa fora da disputa partidária. Não queremos exclusões. Queremos critério. Não queremos censura. Queremos responsabilidade.
E não queremos diminuir a Santa Casa. Pelo contrário. É precisamente porque reconhecemos a importância desta instituição que entendemos que não pode emprestar, mesmo involuntariamente, o seu prestígio a momentos de puro confronto político.
A Santa Casa da Misericórdia de Cascais merece essa prudência.