A notícia de que Cascais está a apertar o cerco aos tuk-tuks não deve ser lida apenas como mais uma medida de fiscalização. Deve, sobretudo, servir para recordar que Cascais tomou há vários anos uma decisão política importante: impedir que este tipo de veículo se transformasse numa presença massiva e descontrolada no centro histórico da vila.
Essa decisão foi tomada quando Nuno Piteira Lopes, atual presidente, tinha responsabilidades municipais na área das Atividades Económicas. Na altura, optou-se por não abrir a porta à proliferação dos tuk-tuks no centro histórico de Cascais, numa decisão que muitos poderão ter considerado excessivamente restritiva, mas que o tempo veio demonstrar ter sido prudente.
Hoje, basta olhar para aquilo em que se transformaram alguns dos centros históricos mais procurados do país, como Sintra e Lisboa, para perceber a importância de uma política de antecipação. Lisboa passou anos a assistir à multiplicação destes veículos pelas zonas mais turísticas, ocupando espaço, condicionando a circulação, criando conflitos com moradores e contribuindo para uma pressão crescente sobre ruas que, em muitos casos, não foram concebidas para suportar este volume de tráfego turístico.
A própria realidade lisboeta acabou por obrigar a uma reação. Foram introduzidas restrições à circulação dos tuk-tuks em centenas de arruamentos, sobretudo no centro histórico, numa tentativa de recuperar algum equilíbrio entre a atividade turística, a mobilidade e a qualidade de vida de quem vive e trabalha na cidade.
Sintra conheceu também os efeitos de uma pressão turística muito intensa sobre um território particularmente sensível. O centro histórico e a envolvente dos monumentos não podem ser tratados como simples corredores de circulação para atividades turísticas. São espaços urbanos e patrimoniais frágeis, onde cada novo veículo, cada paragem e cada concentração de operadores tem consequências.
É precisamente aqui que a opção tomada em Cascais merece ser recordada.
Não se trata de ser contra o turismo. Muito pelo contrário. Cascais vive do turismo, beneficia economicamente da sua presença e deve continuar a saber receber quem nos visita. Mas receber turistas não significa permitir tudo, em todo o lado e a qualquer preço.
O centro histórico de Cascais é um espaço de elevada importância patrimonial, comercial e residencial. É um lugar para ser vivido, visitado e usufruído, mas não pode transformar-se num parque temático permanentemente condicionado às necessidades de uma indústria turística cada vez mais intensa.
Os tuk-tuks são apenas um exemplo de um problema mais vasto: quando uma atividade económica cresce rapidamente sem regras proporcionais à capacidade do território para a suportar, aquilo que inicialmente parece uma oportunidade pode transformar-se num problema.
E é precisamente por isso que as decisões tomadas antes de o problema atingir grandes dimensões são tão importantes.
Cascais teve a possibilidade de observar o que estava a acontecer noutros territórios e escolheu não repetir o erro. A restrição da presença destes veículos permitiu evitar que o centro histórico da vila chegasse à situação que hoje se procura corrigir em Lisboa e que também se sente, de diferentes formas, em Sintra.
A decisão pode não ter sido popular junto de todos os operadores ou daqueles que defendem uma expansão sem grandes limitações das atividades turísticas. Mas governar uma autarquia não é apenas responder às solicitações de quem quer explorar uma oportunidade económica. É também proteger o espaço público, a mobilidade, o património e, sobretudo, a qualidade de vida de quem cá vive.
É essa a diferença entre deixar acontecer e governar.
A atual intervenção da Polícia Municipal junto à Cidadela, perante a concentração de tuk-tuks no âmbito de um evento, mostrou que o cuidado e atenção continuam presentes. As regras existem precisamente para impedir que situações pontuais se transformem numa realidade permanente.
Esteve bem a autarquia.