19/06/26

Editorial: António Pinto Pereira, O Militante Daquilo Que Apenas lhe Convém

A candidatura de António Pinto Pereira à liderança da Distrital de Lisboa do Chega deve levar a reflexões sobre o perfil de quem pretende assumir responsabilidades políticas de relevo. A confiança é um dos ativos mais importantes na política e constrói-se através da coerência, da lealdade aos compromissos assumidos e da capacidade de respeitar as regras democráticas das organizações a que se pertence. Infelizmente, o percurso político de António Pinto Pereira tem suscitado dúvidas precisamente nestes domínios.

Quando alguém entra e sai de projetos políticos, rompe sucessivamente com estruturas que anteriormente apoiou e parece estar permanentemente em conflito com aqueles com quem partilhou responsabilidades, tal como fez com o Chega, é legítimo questionar se estamos perante convicções sólidas ou perante uma política moldada pelas conveniências do momento. A política exige firmeza de caráter e consistência de princípios. Não pode ser um exercício de adaptação permanente ao vento que sopra em cada circunstância.

Mas se o percurso levanta dúvidas, o método político adotado ao longo dos últimos anos levanta ainda mais preocupações. Em vez de contribuir para um debate sério e construtivo, António Pinto Pereira tem privilegiado uma estratégia baseada na polémica, na suspeição e na confrontação permanente. Vídeos construídos com imagens avulsas, recurso a bancos de imagem, insinuações e narrativas destinadas a gerar impacto imediato podem alimentar as redes sociais, mas não acrescentam credibilidade nem dignificam a atividade política. A democracia fortalece-se com factos, propostas e soluções. Não com campanhas assentes na criação de percepções ou na exploração sistemática do conflito.

Quem acompanhou a sua candidatura à Câmara Municipal de Cascais, pela coligação entre a Nova Direita e o Nós Cidadãos, dificilmente esquecerá o ambiente político que procurou criar. Na opinião de muitos cascalenses, essa campanha representou uma das formas mais negativas de intervenção política que o concelho conheceu nos últimos anos. Em vez de elevar o debate público, contribuiu para a sua degradação. Em vez de apresentar uma visão mobilizadora para Cascais, apostou frequentemente na lógica do ataque, da suspeita e da crispação.

O problema deste tipo de atuação não se limita aos adversários políticos. Os seus efeitos fazem-se sentir muito para além das disputas partidárias. Quando a política desce a determinados níveis de agressividade, quando a insinuação substitui o argumento e quando o ataque pessoal se transforma em método, os primeiros a afastarem-se são precisamente os cidadãos mais qualificados, mais independentes e mais bem-intencionados. Muitos homens e mulheres que poderiam colocar a sua experiência e competência ao serviço da comunidade recusam fazê-lo porque não estão disponíveis para participar num ambiente marcado pela hostilidade permanente e pela degradação do debate público.

A democracia precisa de cidadãos dispostos a servir. Precisa de pessoas capazes de discordar com elevação, de competir com respeito e de colocar o interesse coletivo acima dos protagonismos individuais. O estilo político que António Pinto Pereira tem vindo a cultivar parece apontar exatamente no sentido contrário. Em vez de construir pontes, aprofunda divisões. Em vez de gerar confiança, alimenta conflitos. Em vez de fortalecer a participação cívica, contribui para o afastamento de muitos daqueles que poderiam dar um contributo positivo à vida pública.

Naturalmente, qualquer cidadão tem o direito de se candidatar e de procurar convencer os seus pares. Essa legitimidade não está em causa. O que está em causa é a avaliação política do seu percurso, da sua postura e dos métodos que escolheu para fazer política. E essa avaliação conduz inevitavelmente a uma conclusão: quem faz da polémica um modo de atuação, quem muda de posicionamento ao sabor das circunstâncias e quem privilegia a política rasteira em detrimento do debate sério dificilmente reúne as condições para inspirar a confiança, a estabilidade e a credibilidade que cargos de liderança exigem.