A recandidatura de João Ruivo à presidência da concelhia do PS de Cascais surge envolta num slogan ambicioso. “Cascais para todos” é uma formulação apelativa, ampla e aparentemente inclusiva, mas que levanta inevitavelmente uma questão política de fundo. Afinal, quem cabe neste “todos”?
João Ruivo, atual vereador socialista na Câmara Municipal de Cascais, decidiu recentemente abandonar o executivo municipal, não por divergências programáticas profundas sobre o concelho, nem por ruturas ideológicas insanáveis, mas porque não aceitou uma solução de governação que integrava diferentes sensibilidades políticas. Este episódio não pode ser apagado da memória coletiva, pelo contrário, ajuda a perceber o verdadeiro alcance do discurso agora apresentado.
Quando se fala em “todos”, fala-se apenas dos que pensam igual? Dos que cabem numa determinada ortodoxia partidária? Ou fala-se efetivamente da pluralidade democrática que hoje existe em Cascais, goste-se ou não dela?
A pergunta torna-se ainda mais pertinente num contexto político nacional em que o crescimento do Chega alterou profundamente o mapa eleitoral português. Há milhares de portugueses, e naturalmente também cascalenses, que votam ou votaram nesse partido. Concorde-se ou discorde-se dessa opção, essas pessoas existem, votam, pagam impostos e fazem parte da comunidade. Estão incluídas no “todos” de João Ruivo?
A democracia madura mede-se precisamente na capacidade de coexistência entre diferentes sensibilidades políticas. O pluralismo não se testa apenas quando se convive com os próximos ideológicos, testa-se sobretudo quando é necessário aceitar a legitimidade democrática dos diferentes.
Porque “Cascais para todos” pode ser uma visão genuinamente agregadora ou apenas uma expressão politicamente conveniente, limitada aos “todos” que pensam da forma que julga ser certa, a sua.